programa de residências artísticas
ATELIER REAL, 20 DE FEVEREIRO, 18H00 (entrada livre).
Apresentação do projecto
DENTRO DAS PALAVRAS
de rui catalão (portugal)
[em Residência artística entre 1-20 de Fevereiro de 2010]
A palavra inglesa character significa personalidade e personagem. Se imaginarmos um solo intitulado My character, estão criadas as condições para uma peça que pode consistir num retrato psicológico na primeira pessoa (quem sou), mas também denunciar o dispositivo fictício (o que represento). Na língua portuguesa, personalidade e personagem, tal como ser e representar, são termos antitéticos. O objectivo deste trabalho é apagar a linha que os separa." >> Mais infos
Rui Catalão
O trabalho de Rui Catalão tem-se caracterizado pela diletância. Em Portugal, assinou apenas uma peça: Elogio da classe política portuguesa (ZDB, 2004); Untitled, Still Life (ZDB, 2009) é uma colaboração com o casal João Galante e Ana Borralho. Na Roménia, apresentou Atît de frageda (2006), Coada soricelului (2007) e Follow that summer (2008), fazendo ainda as séries de improvisação Acum totsi împreuna e Rui (Centrul National al Dansului Bucuresti).
Jornalista e crítico do Público (1994-1999), iniciou em 2000 uma colaboração formativa com o coreógrafo João Fiadeiro, que culminou na peça Existência. Trabalhou ainda com Miguel Pereira (Portugal), Brynjar Bandlien (Noruega), Mihaela Dancs, Manuel Pelmus e Madalina Dan (Roménia). No cinema, é co-autor dos argumentos O capacete dourado (2008) e Morrer como um homem (2009). Como actor participou em A cara que mereces (2006). |

Foto: Paulo Lopes
O Atelier Real é uma produção RE.AL,
estrutura financiada pela DGArtes (Direcção-Geral das Artes) / MC (Ministério da Cultura). |
Ciclo "Restos, rastos e traços"
resultados do convite à apresentação de propostas
Catarina Simão (Portugal)
Fora de campo, projecto sobre o arquivo de cinema de Moçambique: “uma investigação artística sobre os actos de transformação política das imagens e em especial as que constituem o arquivo de cinema Moçambicano. Trata-se de fazer a história social de um arquivo de imagens políticas, circunscrito a um período de pura ideologia militante pró independência, que no seu tempo interessou às cabeças pensantes dos três movimentos de vanguarda no cinema do século passado: Jean Rouch (Cinéma Vérité), Jean-Luc Godard (Nouvelle Vague) e Ruy Guerra (Cinema Novo).”
Alexandra Ferreira & Bettina Wind (Alemanha/Portugal)
“Ao longo da nossa pesquisa no arquivo de Mousonturm em Frankfurt, no início deste ano, encontrámos uma cassete vídeo de ‘Xavier Le Roy by Jérôme Bel’, de 2001. As elevadas expectativas geradas pelo facto de termos descoberto uma relíquia no vasto e disperso arquivo do centro de performance, caíram por terra assim que começámos a ver a cassete VHS: era quase impossível reconstruir a performance, devido ao limitado ângulo da câmara, à inexistência de som, e à má qualidade da VHS e da própria filmagem. Só quando começámos a reflectir sobre documentações e sobre a relação delicada que têm com as obras de arte, é que nos apercebemos que o nosso achado no arquivo se podia afinal transformar numa verdadeira descoberta... O nosso interesse pelo material de documentação deve-se particularmente à sua resistência a uma reconstrução ‘fiel’ ao acontecimento, ao mesmo tempo que tanto as filmagens da performance como a entrevista [a sua documentação] evocam uma atmosfera de autenticidade e de ‘objectividade’.”
Noé Sendas (Alemanha/Portugal)
“Processo: Quem é Noé Sendas. Partindo de uma prática corrente de abrir processos sobre determinados autores ou personagens/narradores ficcionados, vou abrir um processo com o seu nome, onde pretendo examinar o seu processo criativo e de pesquisa, utilizando o seu modus operandi. No entanto, o meu objectivo não é o de me cingir a um estudo da informação reunida e do seu trabalho realizado; proponho-me ir ao encontro de uma experiência sensorial directa com o autor, sob a forma de um interrogatório.”
Rogério Nuno Costa (Portugal)
“Na maioria das vezes, o filme é mais importante que o making of; outras vezes, raras, o making of consegue ser mais importante que o filme. A mim interessa-me ultrapassar esta duplicidade, porque quero que o making of seja, de facto, ‘o’ filme. Neste sentido, assumo esta fase final do projecto [‘A Oportunidade do Espectador’, plataforma de discussão teórico-prática sobre as dimensões da participação e do compromisso do espectador perante uma obra] como um momento de inflexão teórica novo e autónomo, quase como se o processo de documentação do projecto fosse, de facto, independente do projecto.”
Simon Bowes (Reino Unido)
“Em Julho de 2008 voltei à terra da minha família para poder viver pobre e beligerante, e fazer o trabalho que tinha andado a adiar devido a obrigações relacionadas com um estudo intenso e prolongado. Fundei uma companhia com o meu pai, que tem 74 anos. Denominámo-nos ‘Kings of England’ [Reis da Inglaterra] e ao espectáculo demos o título ‘Where We Live & What We Live For’ [Onde Vivemos & Para Que Vivemos]. [...] O processo de investigação criou muito daquilo a que poderíamos chamar excedente, revelando detalhes esparsos sobre a minha família através das gerações e até um passado distante. Mas enquanto fazedor, este processo de descoberta desperta o meu interesse pela maneira como a performance ao vivo pode abordar a questão da documentação, da maneira como os documentos são performativos, de como encenar intervenções no espaço do arquivo, e do que fazer com os restos, com as questões não respondidas, as questões sem resposta, e as questões impossíveis de perceber...”
Rémy Héritier (França)
“Se a performance existe apenas o tempo que dura a sua performatividade, o que resta são apenas traços. (...) Desde há alguns meses, considero o meu trabalho como uma série de documentos: todas as secções que compõem as peças são documentos, tal como as próprias peças. Esta mudança na denominação do material de trabalho e do próprio trabalho não é uma modificação formal com o objectivo de promover um novo jargão artístico. É uma mudança de natureza. Na minha perspectiva, é um passo pessoal em frente na consideração de uma obra de arte como contribuição.”
Paula Caspão & Valentina Desideri (França/Itália/Portugal)
“As práticas de documentação, nas suas diferentes modalidades e implicações, têm no projecto HOW-TOs uma função de verdadeiros ‘agentes dramatúrgicos’. HOW-TOs é uma colecção meia coreográfica meia infinita que explora a elasticidade dos ‘modos de fazer coisas’ em diferentes áreas de actividade: cinema, gastronomia, literatura, economia, histórias de animais, drama, geografia, ciências neurológicas, artes várias e situações quotidianas de diversos formatos. Se é certo que recorremos a práticas de arquivo, gerando taxonomias e categorias, o nosso objectivo não é fabricar um Arquivo que capture itens numa classificação estável. O que nos move é antes o desejo de fazer surgir dinâmicas relacionais capazes de iniciar diálogos improváveis entre práticas heterogéneas, tanto as existentes como as ainda por existir. Por isso aparecerão nesta colecção compartimentos ainda sem conteúdo, compartimentos especulativos (ficcionais), como canteiros para adivinhar restos, rastos e traços de relações futuras, ou documentos do que ainda não aconteceu. Já que a fronteira entre o acontecimento e o documento não é tão clara como parece.” |

Do arquivo do Mousonturm, Bettina Wind & Alexandra Ferreira, DR.

Fotografia do projecto “Where We Live & What We Live For” de Simon Bowes/Kings of England. DR.
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