|
|
|
|
RESTOS, RASTOS E TRAÇOS. Práticas de documentação na criação contemporânea Projecção do Filme (em loop): THIS IS NOT THE DOCUMENTATION OF A PERFORMANCE (2010)* alexandra ferreira & bettina wind (portugal-alemanha) com a colaboração de GONÇALO FERREIRA DE ALMEIDA e RAMIRO GUERREIRO
ATELIER REAL, 23 DE JANEIRO DE 2010, 19H00-21h00 (entrada livre). duração aprox. 20 minutos, projecção em loop.
Fig. 2 The paradoxical interaction between documentation and event. © windferreira, 2009. |
projectos acolhidos
|
|
Durante a nossa pesquisa no arquivo de Mousonturm de Frankfurt [1], no princípio deste ano, encontrámos uma cassete vídeo de “Xavier Le Roy by Jérôme Bel”, de 2001. As elevadas expectativas geradas pelo facto de termos descoberto uma relíquia no vasto e disperso arquivo do centro de performance, desapareceram assim que começámos a ver a cassete VHS: era quase impossível reconstituir a performance, devido ao limitado ângulo da câmara, à inexistência de som, e à fraca qualidade da VHS e da própria filmagem. Para além de um artigo de jornal e de um plano do desenho de luz, o vídeo era o único elemento que supostamente deveria documentar a existência do acontecimento passado, mas que não conseguiu captá-lo na sua totalidade.
A exposição que depois realizámos no Mousonturm mostrava traços e documentos do arquivo que desencadeavam diferentes narrativas num cenário semi-ficcional. Decidimos não usar a cassete e depressa nos esquecemos da sua existência. Apenas quando começámos a reflectir sobre documentação e sobre a relação bastante delicada que mantém com as obras de arte, é que nos apercebemos que o nosso achado no arquivo se podia afinal transformar numa verdadeira descoberta...
Quando o Jérôme Bel foi convidado a criar uma nova peça após “Le dernier spectacle” [1998], pediu a Xavier Le Roy, seu colega, para fazer uma peça cujo autor seria contudo Jérôme Bel. Esta forma pouco comum de distribuir tarefas pôs em marcha uma série de questões sobre autoria, sobre o original e a imitação, tanto ao nível da performance como no contexto da criação. Numa conversa encenada, filmada alguns anos depois da peça, os coreógrafos evocaram os movimentos e as imagens da performance original traduzindo-os em gestos e palavras: uma nova camada foi assim acrescentada à documentação da performance.
O nosso interesse por este material de documentação deve-se particularmente à sua resistência a uma reconstituição “fiel” do acontecimento e da sua teatralidade, ao mesmo tempo que ambos os documentos – os vídeos da performance e a conversa – evocam uma atmosfera de autenticidade e de “objectividade”. Gostaríamos de partir desta relação paradoxal entre a documentação e o acontecimento, de maneira a colocar várias questões sobre a natureza e a função da documentação: Será ela uma prolongação intrínseca da obra de arte, ou antes uma interpretação suplementar a partir de uma perspectiva exterior, ou as duas coisas? De que maneira é que a documentação facilita ou impede a revitalização de uma experiência? Será que podemos vê-la como uma imitação sem original (como propõe Judith Butler em relação ao género) que dá existência à obra de arte ao descrevê-la como um acontecimento passado? Servirá ela o poder reflexivo da(o) artista ou aumentará simplesmente o capital simbólico do seu CV? Qual é o aspecto mais forte, o rumor que evoca um acontecimento ou a visualização que o documenta?
Convidámos o intérprete Gonçalo Ferreira de Almeida e o artista visual Ramiro Guerreiro para trabalhar connosco nestas questões e interpretá-las para a câmara em nosso nome. Entregando a tarefa do questionamento e da reinterpretação do material e dos nossos pensamentos aos intérpretes, esperamos produzir um “estranhamento” [2] na percepção que habitualmente se tem da documentação de uma performance na sua forma mais comum.
* “Isto não é a Documentação de uma Performance”: título tirado da obra de Adrian Piper “This is Not the Documentation of a Performance” (1976), Courtesy John Weber Gallery, colecção do artista, com a generosa autorização do autor. [1] O Künstlerhaus Mousonturm é um espaço de criação, de produção e de informação para artistas internacionais de todas as disciplinas, centrando-se na dança contemporânea, no teatro, na música, na performance e nas artes plásticas. Mais informações em http://www.mousonturm.de [2] No sentido do “estranhamento” brechtiano (Verfremdungseffekt), também frequentemente designado em português como “distanciamento”. |
Fig. 3 The future projections of documentation. © windferreira, 2009.
Ver os desenhos com mais definição: aqui (PDF, 2,1 Mb) |
|
Alexandra Ferreira & Bettina Wind O nosso trabalho de colaboração baseia-se sempre num local e num contexto específicos, a partir dos quais desenvolvemos a nossa estética e as nossas narrativas. Após uma primeira colaboração por ocasião de Map Station, uma instalação performativa e uma série de eventos criados para o festival Plateaux – Performance Arts at Mousonturm (Frankfurt/Main 2005/2006), iniciámos em 2006 a série State of Translocality, como plataforma de reflexão e de interacção no vasto campo da translocalidade. Com base numa investigação teórica e empírica exploramos diversas situações (como agências de viagem ou intervenções urbanas com panfletos), para restabelecer uma relação entre os termos sociológicos e geográficos e a realidade sentida e imaginada dos “trabalhadores translocais”. Nas nossas instalações performativas navegamos entre o “fetiche do local” e o “fetiche do translocal”, de forma a questionar um e outro: a revitalização da imaginação nacionalista e a negação de ligações locais, num espaço translocal criado por trabalhadores hiper-migrantes. Passos importantes deste processo foram Enter now, para o New Media Festival First Play – HAU (Berlim 2006); For your safety, durante AnAcademy/Gasthuis (Amsterdam 2007); Association of the State of Translocality, no Festival CALE (Fundão 2007) e Pamphlets for the State of Translocality, na exposição Be(com)ing Dutch (Eindhoven 2008), no museu VanAbbeMuseum. A nossa colaboração mais recente foi 40 Jahre Mousonturm // Eine Retrospektive, uma instalação de arquivos na Künstlerhaus Mousonturm (Frankfurt/Main 2009), realizada juntamente com o artista Pedro Lagoa. |
|
|
Alexandra Ferreira estudou Artes Plásticas na Escola Superior de Artes e Design (E.S.T.G.A.D.) das Caldas da Rainha e de Barcelona. Desde 1996 trabalha no Departamento de Escultura de Évora e cria esculturas e instalações em estreita relação com sites de apresentação, por exemplo o bairro da Malagueira (Évora 2000) e o Museu de Cerâmica (Caldas da Rainha 2001). Para além do seu trabalho de escultura co-iniciou vários projectos em Portugal, tais como Caldas Late Night, Carcaju e Loja dos Trezentos (a partir de 1996). Nas suas exposições individuais trabalha com diferentes media, sobretudo o desenho, o vídeo e a fotografia, para formar um corpo de trabalho como comentário crítico da estética e do controle: Moi, je t’observe tous les jours, uma experimentação fotográfica (n°241 Rua da Rosa, Lisboa 2005), Alles unter Kontrolle, uma instalação sobre a performance em zonas limítrofes, incluindo vídeo e desenhos (Estúdio Bomba Suicida, Lisboa 2006) e Mountains are for Masochists, uma reflexão sobre a beleza e os limites do controle em escultura, no desenho e na fotografia (Galeria Plumba, Porto 2008). |
|
|
Bettina Wind estudou dramaturgia, literatura e etnologia europeia em Munique, e trabalhou como dramaturga na área da performance, antes de iniciar uma investigação de longo prazo sobre projectos artísticos interdisciplinares em diferentes cidades europeias, cujos resultados apresentou sob a forma de uma série de mapas e de leituras performativas: Incorrect Maps and Imaginary Snapshot (Bruxelas, Lisboa, Porto, Lovaina 2004/5). No âmbito da sua investigação participou em simpósios interdisciplinares como ICATS Summer Academy for Advanced Theatre Studies (Helsínquia 2004) e “IMPACT” em PACT Zollverein (Essen 2004). Nos seus trabalhos individuais utiliza textos, mapas e slide shows para criar situações performativas e plataformas de intercâmbio, tais como Mapping Nomadic Structures (Bruxelas 2007), A Desiring Machine (Ballhaus Ost, Berlim 2008), e Strange Forms of Life (2. Aufgang, Berlim 2008). Contribuiu com textos para a conferência internacional “O Fascínio de Ulisses” (Galeria Luís Serpa, Lisboa 2008), para Maarav Art Magazine (Telavive 2008), e para exposições de Mariana Viegas, Carla Cruz, e Alexandra Ferreira. |
|
|
Agradecimentos: Patrícia Almeida, Pedro Barateiro, Yael Bartana, Gonçalo Ferreira de Almeida, Ramiro Guerreiro, Pedro Lagoa, Milene Matos Silva, Sofia Matos Silva & Marta Pina, Nuno Morão, Adrian Piper, Renata Sancho, Ivo Serra e a equipa da RE.AL para o apoio e o acompanhamento do nosso projecto. |
|