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AS RESIDÊNCIAS | the residencies O CICLO | the cycle GABINETE AUDIOVISUAL

 

 

 

RESTOS, RASTOS E TRAÇOS. Práticas de documentação na criação contemporânea

GABINETE AUDIOVISUAL: CHRIS MARKER

 

Sans Soleil, Chris Marker, 1983

 

 

 

 

 

PETER WATKINS JEAN ROUCH HARUN FAROCKI CHRIS MARKER

 

Sans Soleil (Sunless), Chris Marker. 1983. DR.


Chris Marker, cineasta da memoria

 

“Terei passado a vida a interrogar-me sobre a função da recordação, que não é o contrário do esquecimento, mas o seu avesso. Nós não recordamos, reescrevemos a memória como reescrevemos a história”. (Sans Soleil, 1983)

 

Os filmes de Chris Marker apropriam-se das imagens encontradas que – tal como as imagens filmadas pelo realizador – adquirem o estatuto de documentos. São as imagens de um mundo que seria visto por aquele viajante do futuro a quem se refere a narradora/leitora de Sans Soleil. “Ele não vem de outro planeta, vem de outro futuro: o ano 4001, a época em que o cérebro humano atingiu o estádio do seu uso total. Tudo funciona na perfeição, tudo aquilo que nós deixamos dormir, incluindo a memória. Consequência lógica: uma memória total é uma memória anestesiada. Após tantas histórias de homens que tinham perdido a memória, eis aqui a de um homem que perdeu o esquecimento. E que, por uma bizarria da sua natureza, em vez de se orgulhar e desprezar essa humanidade do passado e as suas trevas, se afeiçoou a ela, primeiro por curiosidade e depois por compaixão. No mundo de onde vem, convocar uma recordação, emocionar-se face a um retrato, tremer ao escutar uma música só podem ser o sinal de uma longa e dolorosa pré-história. Ele quer compreender: essas enfermidades do tempo, sente-as como uma injustiça.” (Sans Soleil, 1983) Imagens permanentes, omnipresentes, pictóricas, cinematográficas, fotográficas, televisivas e hoje em dia digitais, imagens de tudo e sobre tudo, imagens que formariam a memória total de um mundo que Chris Marker, em arqueólogo do futuro, teria vindo descobrir, quais monumentos de uma civilização passada.

 

O cinema de Chris Marker é um cinema da memória. Uma memória que é estudada nas suas funções mas que é também explorada, com os meios do cinema, no seu funcionamento.

 

Estudando a memória nas suas funções, Chris Marker torna-se historiador. Estuda as imagens do passado, quer dizer as imagens de um mundo que existiu mas já não existe, e do qual restam apenas imagens, filmes, textos. Serve-se pois dessas imagens como de documentos representando não tanto a história propriamente dita, mas a nossa abordagem social da História. Esses materiais documentais ganham assim contornos iconográficos e mitológicos que nos informam sobre a construção e a história dessas mesmas imagens. Os filmes de Marker relatam o paradoxo da imagem, que enquanto agente mnemotécnico da história da humanidade se transforma – sob os efeitos da televisão e da intensidade dos fluxos mediáticos – em recordações-reflexos condicionados por uma iconografia comum. Documentos visuais que não privilegiam tanto a memória que contêm (e o contacto com a história que tornam tangível) mas a acessibilidade e imediaticidade dos clichés, favorecendo uma relação afectiva com a imagem e a História, em detrimento de uma relação reflexiva.

 

Esta abordagem ‘teórica’ do material do arquivo não anda longe da concepção de uma arqueologia do saber de Michel Foucault. Na discussão sobre imagens documentais, poder-se-ia também seguir a natureza discursiva dos factos num ‘arquivo’, para compreendê-las já não como ‘documentos’ (de uma verdade escondida ou de um código), mas como monumentos: com Foucault, esse arquivo ‘não seria a totalidade dos textos [imagens, no nosso caso] preservados por uma civilização, nem o conjunto de traços que poderiam ter sido salvos da sua destruição, mas antes a série de regras que determina, numa cultura, o aparecimento e o desaparecimento de enunciados (énoncés), a sua sobrevivência e a sua obliteração, a sua existência paradoxal enquanto acontecimentos e enquanto coisas’ (Foucault 1994, 708). Esta análise foucaldiana do discurso científico não deve de maneira alguma ser aplicada directamente ao cinema. No entanto, a discussão epistemológica da história parece-me iluminar, num certo sentido, a função do arquivo informatizado moderno, especialmente tal como Marker o apresenta.” (Christa Blümlinger, “The Imaginary in the Documentary Image: Chris Marker’s Level Five”, Image & Narrative, Vol 11, N° 1, 2010)

 

Por outro lado, os filmes de Chris Marker parecem querer penetrar na relação que associa imagem e memória. Qual é o estatuto da imagem nas nossas recordações? Como é que uma imagem transporta memória? Ou como é que a memória adere à imagem? Os seus filmes procuram não só conhecer a natureza do laço que se estabelece entre imagem e memória, mas também criar experiências de memória através da ferramenta e da forma cinematográficas. La Jetée (1962), Sans Soleil (1983) ou Level Five (1997) baseiam-se num dispositivo que implica uma relação particular com o tempo e com a percepção. Estes filmes funcionam como um incessante vaivém entre o passado e o futuro, a tal ponto que o tempo presente se fragmenta e perde toda a autonomia, limitando-se a ser apenas o futuro do passado. O presente define pois um tempo hipotético, fundamentalmente desconhecido e impossível de conhecer; um tempo que não cessa de actualizar as suas hipóteses sobre a sua própria essência e sobre o seu sentido. É a este movimento de actualização que obedecem os filmes de Chris Marker. Uma hipótese desenvolve-se ao longo do filme, mas não necessariamente num sentido linear. Pelo contrário, ela enrola-se sobre si mesma, interrompe-se, reformula-se, divide-se ou procede subitamente de um salto. É individualizada por intermédio de um narrador em voz off que comenta as imagens que nós vemos, que ele vê e nos mostra. Chris Marker situa o espectador na distância que separa a imagem dos seus significados. Entre um contínuo de imagens ópticas e a actualização de algumas delas como “imagens-recordação”, às quais os comentários vão referir-se. Um espectador situado algures na interface entre o olho e o cérebro.

 

"Será que me vejo dentro de dez anos, separado de ti, lendo a notícia da tua morte no jornal, com uma vaga impressão de déjà-vu [...]?” (Level Five, 1997)

 

David-Alexandre Guéniot

 


 

La Jetée. 1962.

La Jetée, Chris Marker. 1962. DR.

 

La Jetée. 1962.

La Jetée, Chris Marker. 1962. DR.

 

La Jetée. 1962.

La Jetée, Chris Marker. 1962. DR.

 

La Jetée. 1962.

La Jetée, Chris Marker. 1962. DR.


filmes para consulta

 

Les Statues meurent aussi, 1953, 30 min, co-realizado com Alain Resnais

La Jetée, 1962, 28 min.

Sans Soleil, 1983, 100 min.

A.K., 1985, 71 min (sobre o Akira Kurosawa).

Le Tombeau d'Alexandre, 1992, 120 min (sobre o Alexandre Ivanovitch Medvedkine)

Level Five, 1997, 110 min.

Une journée d'Andrei Arsenevitch, 1999, 55 min (sobre o Andrei Tarkovsky)

 

Os filmes têm legendagens em Inglês. 



Chris Marker

Nasceu em Neuilly-sur-Seine (França), em 1921. Estudou filosofia e integrou a Resistência francesa durante a ocupação germânica. Trabalhou como jornalista, crítico de cinema e escritor. Desde 1952 tem realizado documentários e filmes de ficção com intenções históricas e documentais. Ganhou projecção internacional com a curta-metragem La Jetée, realizada em 1962. Recentemente, o seu trabalho tem sido objecto de exposições que incluem experimentações tecnológicas e instalações multimédia.