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GHOST : 2011 O CICLO | the cycle : 2009-10 GABINETE AUDIOVISUAL

 

 

 

RESTOS, RASTOS E TRAÇOS. Práticas de documentação na criação contemporânea

FORA DE CAMPO - sobre o arquivo de cinema de moçambique

catarina simão (portugal)

com a participação de JORGE BLASCO GALLARDO (Fundação Antonio Tápiés, Barcelona), ALEX ARTEAGA (Universidade Humboldt, Berlim) e ROS GRAY (Goldsmith College, Londres)

 

ATELIER REAL, 28 DE NOVEMBRO DE 2009, 18H00 (entrada livre).

Apresentação em Português e Inglês, sem tradução.

 

Fora de Campo, sala de documentação. Atelier Real.

Fotografia da sala de documentação do projecto “Fora de Campo” de Catarina Simão.

Atelier Real entre dia 28 de Novembro e 5 de Dezembro de 2009.

Fotos de Catarina Simão e David-Alexandre Guéniot. DR.

 

projectos acolhidos

 

Janša, Janša, Janša: NAME READYMADE László & Rakósi: TEHNICA SCHWEIZ Catarina Simão: FORA DE CAMPO Alexandra Ferreira & Bettina Wind: THIS IS... Noé Sendas: QUEM É NOÉ SENDAS? Rogério Nuno Costa: A OPORTUNIDADE... Simon Bowes: KINGS OF ENGLAND Rémy Héritier: UNE ÉTENDUE POC: CHARLES FREGER POC: SEBA KURTIS Caspão & Desideri: DRAMA (DE)VICES

 

 

 


A arquivística colonial passou de assunto histórico a tema da actualidade em 2008, quando um acordo entre os Governos de Portugal e Moçambique possibilitou pôr em marcha um processo de recuperação do arquivo de cinema de Moçambique.

 

“Fora de campo” – sobre o arquivo de cinema de Moçambique, é o título genérico para um projecto de investigação artístico sobre os actos de transformação política das imagens e em especial as que constituem o arquivo de cinema Moçambicano. Organizar, preservar, indexar, classificar um acervo de imagens, são actos que operam de acordo com um propósito, uma tendência, um pensamento, num contexto tecnológico e intelectual. Como tal, todas estas acções actuam sobre as imagens induzindo um reconhecimento subjectivo e nesse processo adquirem a capacidade de as transformar.

 

“Fora de campo” é uma expressão tirada do vocabulário técnico do cinema e que serve de marco para traduzir simultaneamente um método e um território de pesquisa. Trata-se de olhar essas imagens através dos vários dispositivos (técnicos, administrativos e políticos) que as organizam e as exibem, as construções subjacentes e colaterais que, não estando no centro da imagem, nelas influem ao mesmo nível que a cena ou a acção.

Quais as implicações do interesse dos governos europeus na organização dos testemunhos culturais de outro país? Que instrumentos, conceitos, pressupostos e discursos são usados para interpretar e avaliar o conhecimento desta cultura? É possível trabalhar as imagens de um país ex-colónia sem reproduzir, veicular as mesmas lógicas de subordinação imperialista? Na evidência de uma trama de total obliquidade, como reconhecer a autoridade dessas imagens?

 

A história do cinema em Moçambique revela uma total consciência do poder das imagens. Desde o início da produção cinematográfica, no início dos anos 60, que o cinema foi simultaneamente testemunho e participante da história contemporânea do país. Ao contrário dos arquivos coloniais de outros países africanos, o arquivo de cinema de Moçambique não nasceu com as estruturas deixadas pelos colonizadores. Uma grande parte dos filmes encontrados neste arquivo são usados como instrumento de guerrilha, são filmes de propaganda feitos pelos movimentos de Libertação com o propósito de denunciar as medidas opressivas do regime colonizador a nível internacional, veiculam ideologias, consolidam medidas sociais e económicas por todo o país e denunciam conflitos armados com os grupos rebeldes.

 

Isso explica uma produção que, no mesmo período, só viu semelhanças com o movimento de cinema cubano. Num dos países mais pobres do mundo, em pleno período de reconstrução social, o investimento no cinema institui-se a tal ponto que o Governo Moçambicano funda um Instituto de Cinema em 1975, após a Independência, e atrai a Moçambique realizadores e técnicos de vários países e os três maiores representantes das vanguardas cinematográficas, do Cinema Novo ao Cinéma-Vérité passando pela Nouvelle Vague: Ruy Guerra, Jean Rouch e Jean-Luc Godard.

 

Samora Machel e o novo poder político Moçambicano viu no cinema uma linguagem moderna que possibilitava “filmar o povo e devolver a imagem ao povo”. Mas as imagens de um povo devolverão ao povo o sistema em que assenta a sua imagem? Qual a função deste arquivo Moçambicano dentro dessa trama?


facade inc

 

moviola catarina simao

Fotografias tiradas no Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema em Junho de 2009 - Maputo, Moçambique.

 

>> complementos

> Sobre o Instituto Nacional de Cinema de Moçambique DOWNLOAD [16KB, PDF]

> "Aprender e ensinar a Imagem no Moçambique independente", uma entrevista com Jean-Luc Godard, publicada na revista moçambicana Tempo (nº408, 30 de Julho 1978) DOWNLOAD [8 MB, PDF]


A partir do dia 28 de Novembro, os documentos da investigação "Fora de Campo - sobre o arquivo de cinema de Moçambique", de Catarina Simão poderão serem consultados no Atelier Real, entre 30 de Novembro e 4 de Dezembro das 10h00 às 18h00 (excepto feriado), e no dia 5 de Dezembro entre as 14h30 e as 19h30.

 

Uma visita comentada será organizada no Sábado, dia 5 de Dezembro, às 12h00.


>> suplementos

> Caderno especial (8 páginas) do Jornal do Atelier Real sobre o projecto "Fora de Campo" (Janeiro 2010) DOWNLOAD [760 KB, PDF]

> Texto original e integral da Ros Gray (em inglês) publicado no Jornal do Atelier Real DOWNLOAD [25 KB, PDF]


Catarina Braga Simão (Lisboa, 1972) é arquitecta e investigadora independente. Completou os estudos na Faculdade de Arquitectura de Lisboa e viajou depois para Barcelona para ampliar a sua formação na Escuela Superior de Arquitectura de Barcelona. Contudo, durante os cinco anos em que viveu em Espanha, trabalhou sobretudo para instituições culturais e curadores locais desenvolvendo projectos de investigação sobre arte, política e tecnologia. Dirigiu a Fundação 30km/s onde desenvolveu convocatórias de apoio a projectos artísticos, fílmicos e editoriais. De volta a Lisboa, integra varias estruturas associativas (Colectivo Dclic de Difusión, Procur.arte, Xerem) para desenvolver projectos com forte componente internacional. Na Europa trabalha as áreas da programação de cinema, música, teatro e artes plásticas. Em alguns países africanos participa em projectos de promoção da literacia visual. Em Setembro 2008 criou e produziu o evento Luso-phonia que se realizou em Barcelona, onde o argumento sonoro é chave para uma crítica electro-acústica da sociedade. Desde então tem-se dedicado ao estudo de fenómenos do conhecimento subjectivo e à sua relação com a Diáspora, o pós-colonialismo, com a experimentação, a tecnologia e a outras áreas da produção industrial.


Jorge Blasco Gallardo (Barcelona 1972). Estudou Belas Artes na Universidade de Salamanca e ampliou a sua formação na Technological Educational Institution of Athens. Realizou estudos de pós-graduação e doutoramento na Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona (ETSAB-UPC). Dirige o projecto em curso Culturas de archivo, iniciado na Fundação Antoni Tápiés em Outubro de 2000. Actualmente trabalha no desenvolvimento de projectos e publicações vinculadas a Culturas de archivo e na produção do AIAN, secção Guerra Civil Espanhola. É editor do portal www.culturasdearchivo.org e de diversas publicações relacionadas com o tema que dá título ao projecto. Investiga os diferentes dispositivos aos que geralmente se dá o nome de arquivo e actualmente é parte da equipa de criação do Archivo Tesauro da Fundació Antoni Tàpies.

 

Alex Arteaga (Barcelona 1969). Alex Arteaga estudou piano, teoria da música, composição e arquitectura em Barcelona e em Berlim. A investigação em torno de questões estéticas e criativas fundamentais, despoletadas pelo seu trabalho artístico, conduziu a uma tese de doutoramento com o título: Enquadramento sensual. Aspectos elementares de uma estratégia para a concepção e realização das condições da percepção [Sensuous framing. Basic features of a strategy for the conception and realisation of the conditions of perception], orientada pelo professor Krois no Departamento de Filosofia da Universidade Humboldt de Berlim. Actualmente é assistente de investigação no Grupo de Estudos Avançados do Acto Imagético e da Incorporação [Kollegforschergruppe “Bildakt und Verkörperung”] na Universidade Humboldt de Berlim; professor convidado de Estética e de Teoria da Inscrição Corporal no Master [MA in Solo / Dance / Authorship (SODA)] do Centro Cooperativo de Educação da Dança de Berlim [Hochschulübergreifendes Zentrum Tanz (HZT) – Pilotprojekt Tanzplan Berlin]; director associado da Unidade de Investigação em Arquitectura Auditiva na Universidade das Artes de Berlim [Universität der Künste Berlin]; professor convidado no Instituto Universitário do Filme da Catalunha (Barcelona); investigador na Unidade de Investigação de Escultura Social da Universidade Oxford Brooks; chefe da secção de Humanidades no Instituto de Investigação Artística (Berlim).

 

Ros Gray é escritora e teorizadora. Lecciona Estudos Críticos no Departamento de Arte do Goldsmiths College, na Universidade de Londres, e é directora de investigação no Departamento de Curadoria de Arte Contemporânea, no Royal College of Art. Os seus interesses concentram-se no cinema revolucionário, com as suas redes globais de produção; no ecrã como lugar de encontro radical; na teoria pós-colonial e política; nas culturas urbanas e na teoria do espaço; na arte fílmica e na vídeo-arte contemporâneas.

 


Fora de Campo, sala de documentação. Atelier Real.

 

Fora de Campo, sala de documentação. Atelier Real.

 

Fotografias da sala de documentação do projecto “Fora de Campo” de Catarina Simão. Atelier Real entre dia 28 de Novembro e 5 de Dezembro de 2009. Fotos de Catarina Simão e David-Alexandre Guéniot. DR.