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AS RESIDÊNCIAS | the residencies O CICLO | the cycle GABINETE AUDIOVISUAL

 

 

 

RESTOS, RASTOS E TRAÇOS. Práticas de documentação na criação contemporânea

GABINETE AUDIOVISUAL: JEAN ROUCH

 

Moi un Noir, Jean Rouch (1959)

 

 

 

 

 

PETER WATKINS JEAN ROUCH HARUN FAROCKI CHRIS MARKER

 

Moi un Noir, de Jean Rouch (1959). DR.    


Jean Rouch, Investigador do Museu do Homem [1]

 

Com Les Maîtres fous, Moi un Noir e Chronique d’un été, filmes realizados entre 1954 e 1961, Jean Rouch subverte o cinema etnográfico (inventando assim a etno-ficção) e, de maneira mais geral, modifica a concepção de narrativa documental, integrando-lhe uma dimensão poética e imaginária.

 

Les Maîtres fous é um filme de trinta minutos sobre uma nova seita, os Haoukas, que recrutam entre os imigrantes nigerianos à procura de trabalho em Gold Coast (o Gana actual). Essa seita pratica um ritual que encena a ordem colonial, na qual homens e mulheres possuídos pelo transe incarnam personagens como “o governador”, “o capitão do Mar Vermelho”, “a mulher do médico”, “o condutor de locomotiva”, “o cabo de guarda”, e onde o altar se chama “a casa do governo”, sobre o qual esvoaçam lençóis com motivos impressos a que chamam “Union Jack”. Na altura, o filme provoca reacções violentas por parte dos universitários (Marcel Griaule, grande etnólogo francês e director de tese de Jean Rouch, exige que o filme seja destruído), mas também por parte do público durante o festival de Veneza de 1957, que reage à crueza de certas cenas (os possuídos, espumando baba e ranho, degolam, escaldam e comem um cão). Por outro lado chama a atenção [2] dos críticos (e futuros cineastas) Éric Rohmer, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard, que se apercebem de toda a potencialidade de um equipamento técnico sumário (apenas uma câmara e um captador de som) em termos de liberdade de movimentos (possibilidade, por exemplo, de filmar na rua) e de intensidade dramática (uma sensação reforçada de realismo).

 

O que Les Maîtres fous já comporta – metaforicamente – e que constitui a assinatura artística de Jean Rouch, é o facto de se situar numa linha de partilha que diferencia ao mesmo tempo que produz um intercâmbio; simultaneamente limite e passagem, de um indivíduo a outro, de uma cultura a outra. Lugar fronteira onde duas culturas se encontram uma na outra, de maneira impura, confundida, contaminada uma pela outra. Já que Jean Rouch não é um etnólogo do género observador-objectivo-distante, mas um actor participativo, organizador de um jogo etnológico no qual os objectos de estudo se transformam em sujeitos do seu próprio estudo, tornando-se actores dos seus costumes e rituais, narradores das suas vidas e das considerações que sobre elas fazem. Os seus filmes são como moedas de troca (espécie de Potlatchs alimentando o fluxo do intercâmbio) entre o autor e o espectador, entre o realizador e o actor, entre o estrangeiro e o autóctone, entre o Branco e o Negro, entre o Europeu e o Africano, entre sistemas de representação e ordens simbólicas que presidem a identidades culturais diferentes.

 

Rouch falava de cine-prazer a propósito dos seus filmes, ele próprio tão interessado (como o actor) em vê-los como um espectador, reduzindo assim a distância entre quem concebe (o realizador), quem representa (o actor) e quem olha (o espectador). Organizava por isso sessões de feedback nas quais mostrava aos seus actores (e não-actores) montagens do filme, para compreender melhor (e completar assim), graças às reacções deles, o que se tinha esquecido de considerar na construção das personagens que eram e/ou imaginavam ser e/ou queriam significar. Em Moi un Noir, a pós-sincronização dos diálogos é substituída pelos actores que contam e comentam as suas acções na qualidade de personagens auto-intituladas personagens (chamam-se Tarzan ou Edward J. Robinson – um actor americano que estava na moda – ou ainda Lemmy Caution – herói de policial de série B, muito popular em França na altura). Em cada filme, a narrativa toma a forma de uma fábula que se apodera da realidade para a mostrar imaginando-a, para a imaginar mostrando-a, à semelhança dos comentários das personagens sobre si próprias em Moi un Noir. A imaginação serve a palavra iniciática e fundadora da fábula, enquanto força constitutiva de estruturas sobre as quais se constroem as nossas crenças, as nossas lendas e as nossas representações, científicas e culturais. Descobrindo assim a poética de qualquer ciência, de qualquer esforço que se confronte com o Mundo, para o com-preender [NdT].

 

David-Alexandre Guéniot

 

[1] A propósito desta designação profissional, ver o artigo de Jean-Luc Godard sobre Jean Rouch: « Chargé de recherche pour le Musée de l'Homme ? Existe-t-il une plus belle définition du cinéaste ? » (Les Cahiers du Cinéma n°94, Abril de 1959).

[2] Jean Genet inspirar-se-á igualmente do filme para escrever Les Nègres (1958), uma peça na qual os Negros põem máscaras para imitar a justiça dos Brancos.

[NdT] Tal como aparece no texto original em francês, a hifenização do termo “com-prendre” no contexto de uma reflexão sobre a prática etno-poética de Jean Rouch merece uma breve nota, pois diz-nos que “compreender” é sempre um acto de “entender ou pensar com”, e não um acto de reflexão isolada e à distância. Literalmente: com-preender equivale a tomar em consideração conjuntamente.


filmes em consulta no gabinete audiovisual

 

Les Maîtres fous (1956, 28 min)

 

Mammy Water (1956, 18 min)

 

Jaguar (1955, 88 min)

 

• Moi, un Noir (1959, 70 min)

 

Chronique d’un été (1960, 147 min), co-realizado com Edgar Morin

 

• La pyramide humaine (1961, 88 min)

 

Les veuves de 15 ans (1966, 24 min)

 

• La chasse au lion à l’arc (1967, 77 min)

 

Petit à petit (1971, 92 min)

 

Un lion nommé l’Américain (1972, 20 min)

 

• Les tambours d’avant / Tourou et Bitti (1972, 9min)

 

Cocorico ! Monsieur Poulet (1974, 93 min)

 

Complementos: Entrevistas e conversas inéditas com e sobre Jean Rouch

 

• Jean Rouch raconte Pierre-André Boutang (1992, 104mn)

 

• À propos de Jean Rouch, conversation Bernard Surugue/Patrick Leboutte (28mn)

 

• Le double d'hier a rencontré demain… (2004, 10mn) de Bernard Surugue e Jean Rouch

 


Chronique d'un été, Jean Rouch-Edgar Morin (1960)

Chronique d’un été, de Jean Rouch e Edgar Morin (1960). DR.

 


Mais documentos, textos e imagens sobre a obra de Jean Rouch :

Jean Rouch Tribute Website (em Inglês) : http://www.der.org/jean-rouch/content/index.php

Comité du Film Ethnographique, organizador do Festival do Filme Etnográfico fundado por Jean Rouch em 1982 (em Francês) http://www.comite-film-ethno.net/rouch/rouch.htm

Uma entrevista traduzida em Português e comentada no âmbito de um artigo de José da Silva Ribeiro, do CEMRI - Laboratório de Antropologia Visual, Universidade Aberta, Lisboa: http://www.doc.ubi.pt/03/artigo_jose_ribeiro.pdf

 

De uma forma geral, o artigo Jean Rouch do Wikipedia versão portuguesa tem vários links para textos (em varias línguas) sobre a obra de Jean Rouch http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Rouch (consultado em 28 de outubro de 2009)