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RESTOS, RASTOS E TRAÇOS. Práticas de documentação na criação contemporânea

NAME READYMADE

Janez Jansa, Janez Jansa, Janez Jansa (Eslovénia)

atelier real, 26 de Setembro de 2009, 21H30.

Apresentação em Inglês, sem tradução.

 

Signature, Janez Jansa

Janez Janša, Signature (Copacabana), Rio de Janeiro, 2008.   

Foto: Janez Janša. Cortesia: Maska.   

 

projectos acolhidos

 

Janša, Janša, Janša: NAME READYMADE László & Rakósi: TEHNICA SCHWEIZ Catarina Simăo: FORA DE CAMPO Alexandra Ferreira & Bettina Wind: THIS IS... Noé Sendas: QUEM É NOÉ SENDAS? Rogério Nuno Costa: A OPORTUNIDADE... Simon Bowes: KINGS OF ENGLAND

 

 

 


Janez Janša é o nome do precedente primeiro-ministro de direita liberal e conservadora da Eslovénia – e passou também a ser oficialmente, desde o verão de 2007, o nome de três artistas eslovenos conhecidos. Desde então, todos os seus projectos, as suas vidas privadas, numa palavra, toda a vida de cada um deles passou a ser vivida com este nome.

Um ano mais tarde, analisaram os efeitos deste gesto numa exposição e numa publicação com o título de NAME Readymade. Os objectos apresentados na exposição eram os produtos imediatos, as consequências directas do acto de mudar de identidade: bilhetes de identidade, passaportes, cartões de membros do mesmo partido político (SDS) que o primeiro-ministro Janez Janša, cartas de derrogação para poder viajar sem documentos oficiais (uma vez que estes estavam a ser usados enquanto obra de arte numa exposição), etc. O livro “NAME Readymade” (Moderna galeria, Ljubljana / Revolver) compreende estudos exaustivos e material visual sobre as diferentes etapas e aspectos do acto de mudar o nome, bem como ensaios de especialistas sobre esta matéria e documentos e textos sobre várias acções e projectos de Janša, Janša e Janša.

Janez Janša, Janez Janša e Janez Janša apresentam uma conferência-demonstração na qual, recorrendo a vários tipos de suportes e de fontes, documentam esta experiência/obra.


JANEZ JANŠA project, de Boris Bezic

Vídeostill do filme “JANEZ JANŠA project”

de Boris Bezic (2008). DR.


Quando os três artistas mudaram os seus nomes para Janez Janša, adoptaram de facto uma posição crítica em relação ao estado. Em relação ao governo esloveno, no qual até há pouco tempo todas as funções pareciam verdadeiramente ocupadas por uma única pessoa – Janez Janša. (...) Através da multiplicação do nome Janez Janša, a função do primeiro-ministro adquiriu, no âmbito desta acção artística específica, uma posição semelhante à das latas de sopa Campbell nas obras de Andy Warhol.

Zdenka Badovinac, in Name Readymade, The Book [Museum of Modern Art Ljubljana, Outubro 2008]


 

Filme VER UM EXTRACTO DO DOCUMENTARIO

"JANEZ JANŠA project” de Boris Bezic

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Uma aventura nominal

Entre todas as interpretações possíveis [1], o projecto NAME Readymade pode (também) definir-se como performance invisível ou como obra de arte em estado permanente de “potência”. Uma obra que se manifestaria de vez em quando, por intermédio de processos burocráticos ou mediáticos, através da simples transubstanciação do nome JANEZ JANŠA num suporte qualquer. Como uma assinatura deposta sobre os objectos, que imediatamente os transformaria – pela magia do readymade duchampiano – em obras de arte. Mas também podemos considerar que os objectos transformados pela matriz nominativa JANEZ JANŠA não são apenas obras de arte, mas também indícios de um crime mais vasto, as provas de uma conspiração ou de uma encenação artística. Os documentos que vêm provar a materialidade da aventura nominal experienciada por Janez Janša, Janez Janša e Janez Janša, e que expõem os traços irrefutáveis da ficção crítica [2] denominada “Janez Janša”, que os artistas fizeram emergir na realidade. E a forma como essa ficção, pela lógica narrativa e reflexiva que lhe é própria, desafia certos mecanismos sociais, e principalmente a ordem biopolítica, burocrática e mediática, que preside (entre outras coisas) ao controle e à gestão da identidade dos indivíduos. NAME Readymade toma então dimensões heróicas de aventuras identitárias, de interrogações e debates entre ficção e realidade, de terreno de jogos e confrontações, onde a arte pretende rivalizar com a política de igual para igual.

David-Alexandre Guéniot

 

[1] Sobre este aspecto, consultar o já referido livro NAME Readymade, Moderna galerija / Museum of Modern Art Ljubljana 2008, disponível no Gabinete de Leitura do Atelier Real.

[2] Crítica nos dois sentidos do termo: experiência limite da mistAra entre a arte (pública) e a vida (privada), mas também experiência cívica de uma tomada de consciência das lógicas de controle dos indivíduos (da sua função, identidade e história) pelo Estado.


 

 

 

 


Janez Janša (1964 Rijeka, Croácia) é escritor, encenador de performances interdisciplinares, e intérprete. Estudou sociologia e encenação teatral na Universidade de Ljubljana, na Eslovénia, e teoria da performance na Universidade de Antuérpia, na Bélgica. Encenou Camillo - Memo 1.0: Construction of Theatre no Piccolo Teatro de Milão, Itália, em 1998. Drive in Camillo inaugurou a Bienal Europeia de Arte Contemporânea, Manifesta 3, em 2000. As suas peças recentes incluem We are all Marlene Dietrich FOR, uma performance para soldados em missões de paz (com Erna Omarsdottir); uma reconstrução da peça de 1969, Pupilija, Papa Pupilo, and the Pupilecks – Reconstruction, em 2006, e Slovee National Theatre em 2007. Foi intérprete no projecto de improvisação At the Table, comissionado por Meg Stuart, e realizou uma série de performances piloto em torno do estatuto da performance nas sociedades neoliberais, sob o título Program!. O trabalho de Janez Janša inclui igualmente obras de arte visual, multimédia e performance, nomeadamente The Cabinet of Memories, uma sessão de doação de lágrimas; The First World Camp (com Peter Šenk), um projecto artístico e de investigação interdisciplinar; a performance interactiva Miss Mobile; a acção de reconstrução Mount Triglav on Mount Triglav e o projecto interdisciplinar Signature Event Context (ambos com Janez Janša e Janez Janša). Janša comissiona frequentemente workshops interdisciplinares através da Europa e dos EUA, e fundou (juntamente com Mare Bulc) P.E.A.C.E. – Peacekeepers' Entertainment, uma organização de intercâmbio artístico e cultural. Publicou vários ensaios sobre arte e teatro contemporâneos, incluindo um livro sobre o artista e fazedor de teatro flamengo Jan Fabre. Trabalhou como editor chefe da revista de artes performativas Maska entre 1999 e 2006, e editou uma antologia de teoria do teatro contemporâneo, uma antologia de teoria da dança contemporânea, e vários outros títulos. Desde 1999 que é director da organização sem fins lucrativos Maska, com base em Ljubljana, na Eslovénia, que gere actividades de publicação, de produção e de educação.


Janez Janša

Janez Janša, Janez Janša and Janez Janša
002199341 (Identity Card)
Ljubljana, 2007
Print on plastic, 5,4 x 8,5 cm
Courtesy: aksioma

Janez Janša (1970 Bergamo, Itália) é um artista conceptual, intérprete e produtor, que se formou na Academia de Belas Artes de Milão, em Itália. O seu trabalho tem fortes conotações sociais e caracteriza-se por uma abordagem intermédia. É co-fundador e director de Aksioma, Instituto de Arte Contemporânea de Ljubljana, e o início da sua actividade artística em 1996 deu-se com a instalação urbana I Need Money to Be an Artist, que foi primeiro apresentada em Ljubljana, na Eslovénia, e depois em Veneza, Itália. Em 2001, elaborou (com I. Štromajer) Problemarket.com – the Problem Stock Exchange, uma plataforma virtual na qual as acções de companhias com problemas são negociadas. No ano seguinte, Janša produziu machinaZOIS, um patrono electromecânico que apoia financeiramente artistas e produções artísticas. Em seguida deu início ao desenvolvimento de DemoKino – Virtual Biopolitical Agora, um parlamento virtual, que através de parábolas fílmicas da actualidade dá aos votantes a oportunidade de decidir sobre assuntos que estão a tornar-se na essência da política moderna – as questões da vida. Em 2005, Janša elaborou a plataforma RE:akt!, que analisa o papel dos media na manipulação da percepção e na criação de mitos históricos (pós-)modernos e de mitologias contemporâneas. Uma parte desta plataforma corresponde ao projecto Mount Triglav on Mount Triglav de Janez Janša, Janez Janša, e Janez Janša. Paralelamente a estes projectos sociopolíticos, Janša investigou o campo da realidade virtual e das tecnologias de “neuro-feedback”, e entre 2000 e 2002 desenvolveu e interpretou (com Darij Kreuh) Brainscore – Incorporeal Communication, uma performance para dois operadores actuando num ambiente de realidade virtual através das suas incarnações. Entre 2004 e 2007, dirigiu o projecto Brainloop, uma plataforma de performance interactiva que permite navegar através de um espaço virtual imaginando simplesmente comandos motores específicos. Janez Janša é igualmente co-editor (com Ivana Ivkovic) da antologia de texto e imagem DemoKino – Virtual Biopolitical Agora, publicada por Maska e Aksioma em 2005.

Janez Janša

Janez Janša, Janez Janša and Janez Janša
002199616 (Identity Card)
Ljubljana, 2007
Print on plastic, 5,4 x 8,5 cm
Courtesy: aksioma

Janez Janša (1973 Ljubljana, Eslovénia) representa a nova geração de artistas que problematiza o campo da pintura através do uso de imagens dos media e uma relação livre com vários processos tecnológicos. O seu principal interesse não é tanto expandir o campo da pintura; interessa-lhe mais a ideologia inerente à própria pintura. Janez Janša desconstrói a função social da pintura e a posição do observador. Os temas das suas pinturas têm geralmente uma conexão com os media, especialmente o filme, que continua a modelar a sua percepção da actualidade. A exposição mais radical do seu trabalho teve lugar na Bienal de Veneza 2003, quando pendurou as suas pinturas nas casas de proprietários temporários. Os quadros tinham câmaras embutidas que transmitiam à galeria imagens em tempo real. Tratava-se de pinturas da série intitulada Terror=decor, que analisa a forma como tanto as imagens artísticas como as imagens dos media, especialmente as imagens modernas, se transformam em decoração ao serviço do capitalismo.

 

 

 

 

 

 

Mais informações sobre o projecto “NAME Readymade”, consultar:

http://www.aksioma.org/name/

http://www.maska.si/en/productions/visual_intermedia/name_readymade/

http://www.aksioma.org/name_book/index.html

 

 

 

 

O livro NAME Readymade pode ser consultado no Gabinete de Leitura do Atelier Real.

Janez Janša

Janez Janša, Janez Janša and Janez Janša
002293264 (Identity Card)
Ljubljana, 2007
Print on plastic, 5,4 x 8,5 cm
Original lost; 2nd version:
002359725 (Identity Card)
Ljubljana, 2008
Print on plastic, 5,4 x 8,5 cm
Courtesy: aksioma