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RESTOS, RASTOS E TRAÇOS. Práticas de documentação na criação contemporânea "PROCESSO: QUEM É NOÉ SENDAS?" noé sendas (alemanha/portugal) ATELIER REAL, 20 DE MARÇO DE 2010 (entrada livre) sessão contínua com início às 18H00, conversa com o artista às 19H30
Sendas com a sua namorada, em pose segundo um quadro de Magritte "Os Amantes" na REAL, R. Poço dos Negros, Lisboa, 2010. (c) Noé Sendas 2010 |
projectos acolhidos
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NOÉ SENDAS ou a agonia de um ventríloquo [fragmento de um texto inédito de David Barro]
Entendo toda a obra de Noé Sendas como uma espécie de auto-retrato agónico, retorcido, a partir de um primeiro plano incómodo. Tal como em Faces de Cassavetes, a proximidade crua, mais do que revelar-nos um mundo táctil dificulta-nos a visão, derrete-a ou asfixia-a. Tudo vai dar a uma obscenidade próxima da cegueira, como no erotismo de Bataille. Como na loucura de Lady Macbeth. Tal é o fôlego nu de Noé Sendas na obra que tira o seu título dessa ambivalente personagem shakespeariana, esse desejo compenetrado, arrefecido ao ponto de solicitar a calma no olhar.
“Nada se ganha, tudo se perde, ao obter o que desejamos sem contentamento. É melhor ser aquilo que destruímos, do que pela destruição viver uma felicidade dúbia” [*], declara Lady Macbeth. É o paradoxo de uma vitória virtual em forma de destruição, encarnada numa Lady Macbeth metamórfica, primeiro criminosa, depois demente ou suicida. Essa violência transformadora, esse delírio capaz de desintegrar qualquer ambição, faz-nos pensar que o horror não está no crime mas na metamorfose, nessa viagem a si mesmo que desemboca no suicídio. É isso que atrai um Noé Sendas, que trabalha a aparência e inverte os valores, ou melhor, desdobra o seu sentido, como o Shakespeare mais obscuro. Daí o seu interesse em deformar as formas, como a linguagem impotente de uma personagem ferida, agonizante. Mas sobretudo nu, como a morte erótica de Bataille. “A acção decisiva é despir-se. A nudez opõe-se ao estado fechado, quer dizer, ao estado de existência descontínua. É um estado de comunicação, que revela a procura de uma continuidade possível do ser para lá do retraimento sobre si próprio. Os corpos abrem-se à continuidade por esses canais secretos que nos dão o sentimento da obscenidade. A obscenidade significa a perturbação que destabiliza um estado dos corpos conforme ao autodomínio, ao domínio da individualidade duradoura e afirmada” [1].
E no meio, um espelho. Capaz de deformar a imagem, de a esticar, de fazer uma espécie de respiração assistida ao retrato mais apagado. (…)
David Barro
[*NdT] No original: Nought's had, all's spent / Where our desire is got without content: / ‘Tis safer to be that which we destroy / Than by destruction dwell in doubtful joy. [1] Bataille, L’érotisme, Paris, Minuit, 1957, p. 24. |
"A minha primeira fotografia", uma amiga de família depois da sauna, férias de inverno na Quinta da Aguieira. c.1982 (c) Noé Sendas. |
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Noé Sendas Nasceu em Bruxelas, em 1972.
O seu trabalho surgiu no panorama artístico de meados da década de noventa. Nos seus vídeos, nas suas esculturas, colagens e fotografias digitais, reconhecem-se influências do campo literário e cinematográfico, com citações recorrentes a Shakespeare, Joyce e Beckett, ou a Godard e Hitchcock. A estas referências junta-se o estudo sistemático da auto-representação e o constante questionamento de métodos expositivos, facto que pode facilmente constatar-se nas relações entre a obra e o espectador, nas suas várias instalações de vídeo, áudio, e escultura.
Estudou no Art Institute of Chicago (Chicago, 1997), no Royal College of Arts (Londres, 1993) e no Centro de Arte e Comunicação Visual (Lisboa, 1992-96). Foi Artista residente nos seguintes programas internacionais de residência artística: Peggy Gugenheim Internship, Veneza, 1997; Cité Internationale des Arts, Paris, 1998; Künstlerhaus Bethanien, Berlim, 1999-2000; Casa de Velazquez, Madrid, 2008.
Desde 2008, é co-director e co-programador (juntamente com outros 5 artistas) do espaço gerido por artistas da galeria Invaliden1, em Berlim (www.invaliden1.com).
Website do artista: www.noesendas.com |
Amazona, chuva e máscara", Berlim, 2009. (c) Noé Sendas. |