Retratos fotográficos e uniformes, de Charles Fréger
Desde o início de 2000, Charles Fréger prossegue, na Europa e um pouco por todo o lado, um inventário intitulado “Retratos fotográficos e uniformes”, com séries consagradas aos uniformes de grupos desportivos, militares e estudantis.
“As imagens de Fréger registam os efeitos de socialização encontrados na roupa e na pose que são a superfície do ser. Fréger adora medir o que distingue uma pose da outra, uma tribo de outra, todas essas distinções que fazem aquilo que somos junto dos outros. Que esses modelos tenham poses ou penteados idênticos é o que conduz a um perfil tipo de que Charles Fréger não deixa de desviar-se e sublinhar, mostrando ao mesmo tempo como é que a série permite vislumbrar as mínimas diferenças. De cada vez, a curiosidade empurra-o para mais longe na busca desses modelos, mas também nas suas pesquisas formais. Como se, finalmente, ele desejasse ir sempre mais longe na identificação das diferentes comunidades, como se para fazer o retrato de alguém tivesse sempre de tomar o seu lugar ou vestir a sua farda.” (Didier Mouchel)
A apresentação do trabalho de Charles Fréger, no contexto do ciclo “Restos, rastos e traços”, abordará a vertente documental de tais séries, mas exporá também uma nova abordagem que Charles Fréger vem experimentando desde 2007, em que participa e se faz fotografar, por ocasião de rituais que marcam a integração ou a pertença a uma comunidade.
"Não sou bem um performer. Sou um fotógrafo, e por vezes tenho de envolver-me com um outro meio para expandir o espectro das minhas possibilidades fotográficas. Penso que a fotografia está sempre a atingir os seus limites. No meu trabalho, senti que tinha de ir mais além, tinha de tocar outro lado sensível dos “clãs”, comigo a fazer parte, ou experimentando, de facto, a vida dos meus modelos. Ao mesmo tempo, tudo isto é muito romântico e cheio de ilusões. Quanto mais tentamos aproximar-nos, mais nos distanciamos. Sempre que me encontrava numa comunidade, tinha a sensação de ser um estranho. E esta frustração foi-se tornando maior, ano após ano.
Em 2007, na Namíbia, subitamente passei por cima dos meus limites. Estava a trabalhar com uma tribo Himba, em Kaokoland. As mulheres Himba pintam o corpo delas com uma mistura castanha, que tem um cheiro muito forte. Também queria ter o mesmo, embora estivesse a brincar com fogo do exotismo, do pós-colonialismo. Foi assim que fiz a minha primeira “performance”, documentada pela fotografia. No meu trabalho, a performance é um momento sagrado relacionado com uma sensação. Sei o que é usar um uniforme, a sensação de ter uma pintura na cara… sei qual é a energia, sinto-a sob a pele. Posso falar sobre o assunto, que é muito frágil. Pouco importa que no fim não exista uma maneira definitiva de veicular essa sensação. Ao menos está comigo, melhorou a minha vida. A fotografia é sensível, mas menos do que já foi. Fui educado para ter uma devoção mística, para relacionar a fotografia com fantasmas, ancestrais. Observar daguerreótipos ainda me faz tremer. A fotografia digital perdeu um pouco disso.
O fotógrafo tem um corpo, que é sensível. A experiência fotográfica é vivenciada pelo meu corpo e a escolha dos projectos fotográficos relaciona-se com as capacidades do meu corpo… a maior parte das vezes estou mais interessado neste lado sensível do que no resultado fotográfico… que considero mais uma prova, um troféu ou um “escalpe”, do que apenas uma boa fotografia."
Versão completa da entrevista no blogue de Andrew Phelps www.andrew-phelps.blogspot.com/
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(c) Charles Fréger
Charles Fréger
Nascido em 1975, formou-se na escola de belas-artes de Rouen. Desde 1999 já realizou uma trintena de séries fotográficas que constituem uma reflexão sobre a imagem da juventude contemporânea, sobre a identidade individual e a colectiva. É o fundador da rede de artistas Piece of Cake (www.pocproject.com) e da editora POC. É autor de várias obras, como Portraits photographiques et uniformes, 2001 ; Majorettes, 2002 ; Bleus de travail, 2003 ; Rikishi, 2005 ; e 2 NELSON , 2005 ; e LUX, 2005. As suas séries foram já expostas em várias instituições e no âmbito de eventos prestigiados como os Encontros de Arles, em 2008. www.charlesfreger.com |

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“A série Empire (Império) é um projecto de longo prazo desenvolvido entre 2004 e 2007 em que Charles Fréger se interessou pelos uniformes das guardas reais e de principados (Noruega, Inglaterra, Suécia, Espanha, Mónaco, etc.), republicanas (Portugal, França, Grécia, São marino, etc.) ou pontificais existentes na Europa. Este projecto, pela sua amplitude e ambição, representa um marco no trabalho de Charles Fréger. A dialética que liga protocolo e socialização, aparato e individualidade, é justificada em Empire pela acumulação intencional de rostos, de roupas, de poses e cenários, constituindo afinal outros tantos inventários subjectivos e poéticos da nossa humana condição.” Didier Mouchel.
O livro EMPIRE é editado por Kerher Verlag / Thames/Hudson (2010).
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