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AS RESIDÊNCIAS | the residencies O CICLO | the cycle GABINETE AUDIOVISUAL

 

 

 

RESTOS, RASTOS E TRAÇOS. Práticas de documentação na criação contemporânea

A OPORTUNIDADE DO ESPECTADOR

rogério nuno costa (portugal)

ATELIER REAL, 22 DE MAIO DE 2010, 18h00 (entrada livre, lotação limitada)

em residência artística entre 22 de março e 22 de maio de 2010

 

(c) José Luís Neves

 (c) José Luís Neves 

 

projectos acolhidos

 

Janša, Janša, Janša: NAME READYMADE László & Rakósi: TEHNICA SCHWEIZ Catarina Simão: FORA DE CAMPO Alexandra Ferreira & Bettina Wind: THIS IS... Noé Sendas: QUEM É NOÉ SENDAS? Rogério Nuno Costa: A OPORTUNIDADE... Simon Bowes: KINGS OF ENGLAND Rémy Héritier: UNE ÉTENDUE

 


There is no reality, only perception.”

[Dr. Phil’s Life Law #6]

 

Na maioria das vezes, o filme é mais importante que o making of; noutras vezes, raras, o making of consegue ser mais importante que o filme. A nós interessa-nos ultrapassar esta duplicidade, porque queremos que o making of seja, de facto, ‘o’ filme.

[Rogério Nuno Costa, sobre “A Oportunidade do Espectador” e depois de ter lido o livro do Dr. Phil]

 

O projecto “A Oportunidade do Espectador” consistiu numa plataforma de discussão teórico-prática sobre temáticas caras às dimensões da participação e do compromisso do espectador perante a obra. O projecto teve como motor de arranque uma série de oito workshops realizados em Portugal e na Alemanha, durante os quais foi possível propor um espaço de discussão e de experimentação à volta da criação de objectos artísticos (ou para-artísticos) essencialmente “residuais”, de carácter não necessariamente efémero, mas suportados na sua construção efectiva em formatos variados de arquivo e documentação. O documento “Dogma 2005” foi usado como base estruturante desses workshops, quer como fórmula concreta de criação e de construção dos projectos de cada participante, quer como plataforma de reflexão e de debate sobre os temas da liberdade artística, da regra e da obstrução, da documentalidade e da contextualidade, da inclusão do olhar do espectador no discurso conceptual sobre a obra, da ética do observador, da produção e da comunicação, da legitimação e da análise tecno-estética.

 

Com a presente residência, surge a oportunidade de criar um dispositivo documental e comunicacional com base nos materiais arquivados desde 2006. A “documentação” afigura-se aqui não só como pressuposto técnico de inflexão criativa (subjacente à componente prática do projecto), mas também como conceito operacional de reflexão global. Deste modo, a residência de dois meses no Atelier Real recoloca o projecto numa dimensão não necessariamente “conclusiva” (atitude perigosamente anti-dogmática), abrindo antes caminho para uma fase de sistematização e organização de registos em suportes vários (vídeo, fotografia, texto, objectos...) inserida numa lógica de “pós-produção”. Às fases anteriores do projecto corresponderia a “pré-produção” de possibilidades criativas que nunca chegaram verdadeiramente a acontecer, um paradoxo crítico que alimentou toda a ficção do “Dogma 2005” — ou seja, não há “produção” possível.

 

O dispositivo de apresentação tem por objectivo de conceder ao público o acesso aos resultados desta experiência na forma de uma comunicação (não confundir com “conferência” ou com “lecture”), num formato consentâneo com o “Dogma” e com características ideologicamente científicas, mas também jornalísticas. Através dele serão disponibilizados um conjunto de documentos oriundos de diversos quadrantes teórico-práticos do projecto “A Oportunidade do Espectador” e apresentados com diferentes tonalidades:

1) em bruto (o filme “The Five Obstructions” de Lars von Trier & Jørgen Leth, seguido de discussão);

2) em processo (o catálogo online, do qual farão parte alguns dos textos que se encontram pré-publicados neste jornal);

3) filtrados por uma ideia de organização cronológica e expositiva (documentários em vídeo de cada uma das três fases do projecto, bem como uma selecção de objectos-prova devidamente catalogada e disposta na forma de instalação);

4) na condição de “case study” (através da apresentação pública do resultado do processo “dogmático” encetado por duas estagiárias — Tânia Ribeiro e Teresa Athayde (que comigo partilham a residência) —, submetidas a um processo de supervisão e controle criativos em tudo semelhante àquele que foi desenvolvido pelos ex-participantes do projecto: cumprimento das regras do “Dogma” e acompanhamento do curador Rogério Nuno Costa e do orientador de estágio Nelson Guerreiro. Seguindo o desenho estrutural do todo o projecto passado, também nesta fase a responsabilização do espectador perante os objectos “criados” e “tornados públicos” será tida em linha de conta.

 

A citação do celebrity psychologist Dr. Phil, com que inicio este texto, foi escrita no quadro da “Curator’s School” no primeiro dia de “aulas”. Com ela concluía o traçado de um projecto complexo na sua estruturação formal, mas bastante claro (aos meus olhos) nas suas intencionalidades conceptuais: quais as possibilidades “reais” da realidade poder ultrapassar a ficção? Através da (auto-)imposição de regras e de obstruções, como procurar os “reais” limites da liberdade artística, essa coisa mais ética que estética? Como ultrapassar/desconstruir/destruir o paradigma do “eterno work-in-progress” (leia-se: constante adiamento de intenções, logo, demissão), recusando que se “está em processo”, antes que se “está em resultado”? A resposta a estas perguntas não é consoladora, muito menos unilateral; multiplicou-se rizomaticamente pelas inúmeras possibilidades teórico-práticas que o projecto “A Oportunidade do Espectador” pôde testar. É o que acontece quando se acredita que as boas perguntas já trazem as respostas dentro. É também o que acontece quando se recusa que o mundo está inelutavelmente dividido em dois: copos meio cheios vs. copos meio vazios.

 

Na gala final da “Curator’s House” (ZDB, Julho 2008), Nelson Guerreiro respondia à minha pergunta “Quem está a ganhar, a realidade ou a ficção?” com a resposta-presságio “Nem uma nem outra; estamos na era do empate técnico”. É no seio desta realidade terceira, desta proposta para a instauração/imposição de uma Terceira Via™, que me proponho a reflectir sobre os restos, os rastos e os traços deixados pela “Oportunidade do Espectador”. E porque sei que a memória daquilo que fica é mais importante que a memória daquilo que foi, posso afirmar que o projecto “A Oportunidade do Espectador” começou agora. Roubando e vandalizando as palavras-slogan do espectador oportuno Artur Félix: “I asked for it, I deserved it, I got it.” 

Rogério Nuno Costa


DIA 19 DE MAIO, 19H00 (4ª feira): sessão de trabalho, projecção e debate sobre o filme “The Five Obstructions” de Lars von Trier e Jørgen Leth

com a participação de Rogério Nuno Costa, David-Alexandre Guéniot e João Fiadeiro.

 

"O filme "The Five Obstructions" foi a matéria referencial mais importante a ser utilizada no contexto do projecto "A Oportunidade do Espectador". Serviu de plataforma de discussão e de reflexão (...) por lidar especificamente com o conceito de liberdade artística, através da imposição de regras de conduta (técnica e psicológica) muito restritas. Os dois realizadores conseguem um produto final que é um tour de force entre um mestre e um discípulo, radicalizando conceptualmente o formato de "making of". Este não é mais importante que o "filme", mas também não é subsidiário deste; o "making of" é mesmo o filme. É esta revelação de uma "terceira via", mais ética que estética, que aproxima ideologicamente esta obra do projecto "A Oportunidade do Espectador".

Rogério Nuno Costa

 

 

The Five Obstructions

(c) Joana Campos Silva

 

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(c) Joana Campos Silva

 

A Oportunidade do Espectador (c) Artur Félix

(c) Artur Félix

>> suplementos

> Excertos do Dogma 2005

> Excertos do texto “Can artists be loved too much?” de Nelson Guerreiro a ser publicado no catálogo online “Big Curator Is Watching You”


Rogério Nuno Costa

Nasceu em Amares, em 1978. Vive e trabalha em Lisboa, como artista, investigador e professor, em várias áreas da prática e do pensamento performativo. Como intérprete, criador e colaborador artístico, trabalhou com: Teatro Praga, Sónia Baptista, Lúcia Sigalho/Companhia de Teatro Sensurround, Alain Béhar, Rosa Coutinho Cabral, Nelson Guerreiro, Teresa Prima e Miguel Bonneville; e com os artistas plásticos Ramiro Guerreiro e Ana Cardim. Colaborou ainda com várias companhias e estruturas nacionais e internacionais. Escreve regularmente para publicações ligadas ao pensamento artístico e colabora com vários artistas na condição de observador. Dirigiu, escreveu e interpretou as performances: "A Leitura Encenada É Um Género Que Não Faz O Meu Género" (2002), "Vou A Tua Casa" (2003), "Saudades Do Tempo Em Que Se Dizia Texto" (2003), "ACTOR" (2004), "No Caminho" (2004), "FUI/esboços" (2005/2006), "Lado C" (2005/2006) e “Espectáculo de Teatro” (2008).

 

Websites e blogs do artista:

www.vouatuacasa.blogspot.com

[etiquetas: A OPORTUNIDADE DO ESPECTADOR, RESTOS RASTOS TRAÇOS, THE CURATOR’S OFFICE, THE CURATOR’S HOUSE, THE CURATOR’S SCHOOL]

www.rogerionunocosta.com/oportunidade.html

www.youtube.com/vouatuacasa


The Curator School (c) José Luís Neves

(c) José Luís Neves