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AS RESIDĘNCIAS | the residencies O CICLO | the cycle GABINETE AUDIOVISUAL

 

 

 

RESTOS, RASTOS E TRAÇOS. Práticas de documentação na criação contemporânea

apresentação do projecto

"WHERE WE LIVE & WHAT WE LIVE FOR"

de kings of england

por simon bowes (Reino Unido)

ATELIER REAL, 19 DE JUNHO DE 2010, 18h00 (entrada livre, lotação limitada)

em residência artística entre 14 e 21 de Junho de 2010

 

Kings of England

Uma cena habitual na nossa casa, o meu pai a ensaiar para o coral,

no seu Teclado Casio de estilo espacial. Foto (c) Kings of England 

 

projectos acolhidos

 

Janša, Janša, Janša: NAME READYMADE László & Rakósi: TEHNICA SCHWEIZ Catarina Simăo: FORA DE CAMPO Alexandra Ferreira & Bettina Wind: THIS IS... Noé Sendas: QUEM É NOÉ SENDAS? Rogério Nuno Costa: A OPORTUNIDADE... Simon Bowes: KINGS OF ENGLAND Rémy Héritier: UNE ÉTENDUE

 


Texto e Imagem em Kings of England: “Where We Live & What We Live For”

 

TEXTO: Setembro de 2006: No quarto de hóspedes dos meus pais que nos serve de biblioteca, encontro um livro. Uma página em branco no início contém uma nota a esferográfica azul com a letra da minha mãe (nada o género dela): Página 253 – ‘tempo’. Vou à página. Agora (e sou capaz de citar isto de memória – mesmo sem olhar): “O tio Otto costumava pôr as mãos na lapela e fazer-nos um discurso, mesmo que lhe tivéssemos apenas perguntado as horas. Dizia: ‘O tempo é um conceito intemporal e extraviou gravemente a humanidade, especialmente na forma como registamos a idade, coisa que fazemos desde o nascimento, e no entanto – não é o tempo decorrido que nos preocupa, mas o tempo que nos resta, e isso é algo que não podemos saber. Um jovem de quinze anos que morra amanhã é muito mais velho do que um velho de setenta e dois anos a quem restam dez anos. Por isso já vê... não devemos preocupar-nos com o tempo, a não ser para marcar encontros ou dias, por conveniência pública’”[1]. IMAGEM: Agosto de 1952: O rapaz tem cerca de dezoito anos, bem parecido, descendo a avenida com o seu pai: um fotógrafo aparece-lhes à frente, foca-os, carrega no botão do obturador, esperando fazer negócio. O meu pai parece contente, o pai dele bastante menos. Mas um dos dois deve ter pago. TEXTO: Março de 2008: num outro livro, emprestado por um querido amigo (ainda por devolver), leio o seguinte desejo: “Às vezes apetecia-me escrever um livro / um livro só sobre o tempo / sobre a forma como é inexistente / sobre a forma como o passado e o futuro são um presente contínuo / parece-me que toda a gente / os vivos / os que já viveram / e aqueles que hão-de viver / se encontram vivos neste momento / gostava de decompor esse tema / como um soldado desmantelando a espingarda”[2]. Na lógica da performance “Where We Live & What We Live For”, estes escritos são anteriores, precedendo qualquer reflexão mais profunda sobre a família ou a casa, e a minha mãe foi de facto a primeira investigadora. É significativo que comecemos com outros escritos. Se por vezes nos faltam elementos para representar as nossas histórias, recorremos aos outros. IMAGEM: Junho de 1958: O rapaz tem cerca de vinte e três anos. Saltou dos rochedos para o mar. O fotógrafo apanha-o a meio caminho. RETROSPECTIVA: A performance é sobre a perda de memória (o meu pai, com 67 anos em 2001, caiu da bicicleta com uma espécie de mini derrame cerebral, e durante uma hora não se lembrava do nome, nem de onde estava, nem de onde vivia). Numa proposta para o Battersea Arts Centre Scratch Festival levanto uma questão: “Como é que o corpo idoso pode re-performar o(s) acontecimento(s) da juventude”, e a seguir escrevo: “A nossa performance integrará o espaço do salto (1958) no espaço da queda (2001), para celebrar o instante em que sabemos ter sobrevivido”. Quando pedi ao meu pai que viesse comigo para o palco, foi para explorar essa hora perdida, para dar uma descrição do tempo que ele próprio não podia dar.  É o buraco no tempo (a incomensurabilidade entre as experiências que cada um de nós vivenciou) que abre um espaço de jogo. As referências são familiares: aprendi estas coisas em livros, imagens, especialmente em Roland Barthes dizendo: “A fotografia em si não tem nada de animado (não acredito nas fotografias ‘vivas’), mas ela anima-me: é isto que faz toda a aventura”[3]. Agosto de 2008: Entre o texto e a imagem tentámos articular uma espécie de recuperação, uma espécie de reconversão. A performance cria documentos, recria documentos. Os textos, as imagens, já performativos, comportam os traços das actuações em Londres, Liverpool, Edimburgo, Bristol, Birmingham, Lisboa. Encenando-nos como se fossemos outros, como encenando o documento, perturbamos a vivacidade dos momentos passados, há muito contidos no presente.

 

Simon Bowes (Kings of England) 19.04.10


[1] Segundo Garrison Keillor, Lake Wobegon Boy, Faber, 1992.

[2] Yevgeny Vinokurov, citado em John Berger, And our faces, my heart, brief as photos, Bloomsbury Pbks, 1984.

[3] Roland Barthes, Camera Lucida, tr. Richard Howard, New York, Noonday Press, 1981, p. 3 [no original: “La photo elle-même n'est en rien animée (je ne crois pas aux photos ‘vivantes’) mais elle m'anime : c'est ce que fait toute aventure.”]


Kings of England

 

Material promocional de Mike Fallows

da firma de design de Manchester a-to-m.com.

(c) Kings of England

 

Kings of England

 

Mãe Pai e a dançar. Foto de ensaio.

(c) Kings of England

 

>> Apresentação do projecto em PDF


Simon Bowes

Simon Bowes é artista freelance e investigador, com base no Noroeste da Inglaterra. O seu trabalho deriva das Artes do Espectáculo, da Performance e do Teatro, movendo-se entre a conferência performance, a conversa, sessões de canto, trabalhos discretos, sessões de tête-à-tête, viagens, caminhadas breves, conversações longas e dias grandiosos de passeio.  

Dirige “Kings of England” e desenvolve actualmente dois trabalhos: “Where We Live & What We Life For” e “If ”. Estes trabalhos exploram o tema da família de maneira a questionar as descendências, as genealogias, as histórias pessoais e autobiográficas, e sobretudo para celebrar o amor, a perda, a felicidade, e a passagem do tempo: em honra do Outro, Velho Mundo – que veio antes de nós. Não somos nada – ainda – apenas possibilidade. “Where We Live & What We Life For” foi comissionado por The Nuffield Theatre, Lancaster, Battersea Arts Centre, Leeds MetStudio Theatre and The Bluecoat, Liverpool, e pelo Arts Council de Inglaterra.

É membro do colectivo de artistas Sometimes..., que produz projectos de implicação pública, em associação com Greenroom e com as pessoas de Manchester.

http://www.simonbowes.net/

http://bowesandson.blogspot.com